segunda-feira, 21 de maio de 2007

Até que chegue a primavera.

Boa semana a todos os pássaros dessa revoada...Mantendo a tradição, volto eu, o Barrão, a postar novamente nas segundas-feiras.
Ando curioso, onde estão os outros pássaros? Murucututu, curió, e até o Corujão, onde estão? Sempre tão presentes nesses voos. E os demais? Albatroz, trinca-ferro, sabiá, quero-quero, dôdô, godero, o pombo, o pardal, onde estão vocês???
SENDO ASSIM, CLAMO EU SUAS PRESENÇAS...VOEMOS CAROS CAMARADINHAS PASSÁROS...


Eu, como todos sabem, encontrei minha Maria-de-barro, e pra ela escrevi um conto. Seu nome, na sua terra natal, quer dizer "primavera clara", e sendo assim acabou por me cativar por completo. Trata-se de um conto, e por isso pensei se seria aqui o lugar de espolo a vocês, porém estará aqui, e essa será minha postagem da semana, leia e divirtan-se ou não leiam e chorem...rsrsrsrsrs...sacanaa...beijos a todos e uma linda semana a todos.
PS: Meu aniverssário está chegando.

ATÉ QUE CHEGUE A PRIMAVERA.


Havia caminhado anos a fio. Caminhava sob uma árida planície, seca, deserta, quase morta. Cuspia um pó triste e amarronzado, cheio de mágoas e ressentimentos.
Às vezes a solidão era desfeita, com sonhos incríveis, de incríveis belezas e purezas. Mas eu sempre acordava, e tão logo voltava a amarga solidão.
Miragens? Tive muita. Oásis, castelos, cachoeiras imensas, mas tudo não passava de poeira e ilusão. Na insanidade febril que teimava em me acompanhar, corria como um louco em direção a maldita miragem, até que me espatifasse ao solo, e de cara ao chão sentisse a areia me penetrar nas narinas, o que a muito e aos poucos já me secava por dentro. Seco eu me encontrava.
Certo dia avistei ao longe, uma árvore completamente seca e praticamente morta. Talvez espelhasse ela o semblante de minha derrota, talvez fosse um sinal de que o fim estava-nos perto, talvez ela estivesse ali para que testemunhássemos concomitantemente nosso fim derradeiro, que sabíamos, era questão de tempo. Corri até ela como se encantado, deslumbrado com aquele ser, que embora seco e aparentemente morto, ainda se encontrava de pé, fisicamente visível e ternamente palpável.
Ela parecia estar ali a um bom tempo. Estava num lugar que era como se numa pequenina ilha, só que ao seu redor a muito não passara se quer um pingo d’água, e se quer um rastro de vida. Pulei pra dentro do local onde estaria o rio, se ali houvesse água, e na euforia da corrida cai ao chão, mas no embalo do momento do encontro, rolei bem rápido e ergui-me adiantando-me até a árvore seca.
Com o olhar fixo e impenetrável agarrei-a num abraço majestoso como dos apaixonados que não se viam a muito por um mal motivo, ou o do filho que abandonara a mãe que, mas tarde o recebe de braços abertos. Enfim, atraquei-me àquela árvore, toda em casca, velha, seca, mas salvadora. Ajoelhado e com o corpo atracado ao seu, me fiz em pranto sobre suas secas raízes, e permanecemos juntos até que se passassem seis luas minguantes. Minguamos juntos.
Enquanto a lua nos vigiava de cima, éramos tomados por uma brisa que a muito não nos vinha, uma brisa leve, sinuosa, inspiradora e de certo modo, bem saudosa.
Ao fim da sexta noite, junto com o amanhecer, senti uma irritação diferente nas narinas. Não eram aquelas centenas de grãos de areia que voavam indiscriminadamente. A brisa trazia com sigo um suave odor. Por alguns instantes tive um ataque de espirros. Já não chorava mais. Percebi então que na ponta de um dos galhos da árvore havia nascido uma folha, ainda tímida, mas nascia, viva, nova, e cheia de esperança.
Meu pranto havia encharcado as raízes, que agora pareciam estar mais fixas ao chão. A terra ao meu redor estava úmida, e a brisa agora era bem mais freqüente.
No dia seguinte, após uma noite fresca e confortável, fui despertado com uma nova companhia. Uma borboleta preta com manchas em vermelho e uma outra toda de um amarelo bem clarinho, mais com algum tom de branco as suas bordas. Pus-me sentado e, perplexo, vi que a margem do rio a minha frente e em todo meu redor, estava cheio de água, já havia várias folhas na minha árvore, e ela transpirava vida.
O dia se passara inteiro bem claro, um claro diferente, mais branco e calmo, e às vezes, de um amarelo um pouco mais intenso, e igualmente claro. E o passei de fronte ao rio, encostado em minha amiga, abraçando meus joelhos, sorrindo aos céus e virado para o oriente. Assim fiquei até pegar no sono.
Foi o canto dos pássaros que me despertou no dia seguinte. E como foi bom acordar com aquele canto lindo, puro e que há muito só o ouvia em meus sonhos. Ergui-me de braços abertos e dando volta em torno de meu próprio eixo, gritei bem alto, “Bom dia, bom dia a todos, bom dia Sol que é majestoso e sua luz é divina e soberana, bom dia minha querida, companheira e amiga árvore a qual nos fizemos âncoras para suportar as maiores e perversas tempestades, as de areia. Bom dia ao lindo casal de borboletas, que ao que me parece, decidiram convidar o resto da turma. Bom dia aos lindos pássaros que me despertaram com todo esse canto encantador, e bom dia a todos que aqui estão...bom dia, BOM DIA...”
Nessa noite dançamos ao som dos pássaros, que acompanhados de uma afinada orquestra de sapos, grilos, cigarras, deixou tudo numa plena comunhão astral, energia e muita vida no ar, tudo isso, sendo iluminado pela esplendorosa Lua, e centenas de vaga-lumes que mais pareciam minúsculas estrelas ao alcance das mãos, e ao fundo o barulho da pequena correnteza que agora se fazia presente no rio.

Depois de observar o céu por alguns bons momentos, cansei e adormeci naturalmente.
...
Com algo batendo na minha cabeça foi que acordei no dia seguinte, e vi que fora uma fruta que caíra de minha amiga, e de imediato, senti a vibração de muita vida ao redor. Havia flores por todos os lados, girassóis, flores-do-campo, damas-da-noite, e tantas outras espécies mais quanto se possam imaginar. Tantos eram os cantos de pássaros que dava pra se perder facilmente com tantas melodias.
O rio tinha uma água muito clara que dava pra ver o fundo, e peixes coloridos se alimentavam de pequenas frutinhas e insetos que pousavam ou caiam n’água. Atirei-me então, meio que de cabeça, meio que de peito aberto, dentro d’água. Foi o melhor banho da minha vida. Percebi que a primavera havia contemplado aquele lugar tão ermo e deserto, percebi que a vida havia tomado conta de tudo de novo, que havia eu de viver e aproveitar a primavera, e toda sua vital energia primaveril.
Enquanto pensava nisso, pulava e jogava água para todos os lados como uma criança, e de repente, de súbito, quedei-me estático. Tinha eu de partir. Tinha eu que abandonar aquele lugar e viver a parte de vida que me cabia, existir para aqueles poucos seres que pudessem me encontrar em meu humilde e curto lapso de vida. Tinha eu de partir e deixar ali toda uma saga melancólica de deserta e sozinha desilusão. Deixar ali a árvore mais valente que já conheci. Deixar enraizado ali com ela meu pranto de vida que se fez planta, e folha, e fruto e que na infinidade espacial das noites minguantes, nos fez um só ser, atados a um mesmo ideal, e juntos vencemos.
Agarrei-me ao seu tronco. Dei-lhe um abraço bem apertado e de coração aberto, e sorrindo despedi-me dela. Pulei dentro da água, pus mais um tanto na boca e pulando, atravessei até a outra margem. Era um lindo campo coberto com flores, tinha um perfume inenarrável, uma plena, calma, e clara espiritualidade no ar. Saí em disparada a correr pelos mais lindos campos coloridos de fina flor, com a primavera a me rodear, a me seduzir, a me trazer a vida, a me enfeitiçar, e a me fazer mais uma vez um ser com alma, com vida, que, aliás, no meu íntimo, já se encontrava por total e há muito, desamparada e perdida. E por fim, na primavera vivi,perdi-me até que adoeci e nela, em seu leito morri.
#########FIM##########



Beijo a todos, uma ótima semana e até.

joão.

6 comentários:

Anônimo disse...

o casotinhá....

vamo sê irmão??

perí

Anônimo disse...

Que coisa mais Linda...

Barrão, o mestre da emoção!

Parabéns!

tico-tico

Anônimo disse...

Onde compro o livro?
Preciso ler mais coisas assim.

curió

amolecada disse...

Bota pra 2, q eu tb quero!

Fala meu curió sumido.....aposto q tem passarinha na área tá muito sumidinho...

ohniranac

Anônimo disse...

Meu caro Cana.
Passarinha? Quem dera! É o passaróleo mesmo que tá me consumindo.
Agora mal tenho os fins de semana.
Mas em agosto estaremos juntos, correto?!
Um forte abraço,

curió

Anônimo disse...

Ima-gin-a-ção! Sensacional barro, um filme!

bent