Ah meus amigos, como anda monótona ese nosso viveiro nos últimos dias. Espero sinceramente uma presença maior de todos, mas já percebemos que a coisa funciona meio que na boa vontade de cada um, e isso, como disse, é de cada um.
Bom, é com uma enorme alegria que digo-lhes que tudo o que passou por aqui, saído de minhas mãos, está hoje devidamente registrado pela Biblioteca Nacional, em seu escritório de direitos autorais, e sendo assim, devidamente protegido, arquivado e guardado. Foi posto tudo, numa única obra que leva o título do texto que vou apresentar a vocês agora. Espero que Leiam. Espero que leiam e gostem. Ou melhor, espero que leiam e, se por acaso, vierem a gostar, ótimo inesquecível, mas, assim como antes, trata-se de uma visão individual de cada um.
Bom, assim mando hoje o Viveiro de emoções. Beijo no coração de todos.
VIVEIRO DE EMOÇÕES
A casa ficava numa antiga rua sem saída, toda em paralelepípedos, onde as crianças sempre brincavam de tudo o tempo inteiro. Não havia quase nenhum carro, a não ser uma velha Belina de seu Haroldo que morava na casa quatro, logo à frente.
Era uma casa bem antiga e que antes, não tinha muro e sim um pequenino portão e uma cerca de madeira. Hoje, porém, Nadja Rúbia única filha de seu Ícaro, mandou erguer um muro de quase dois metros, por andar meio preocupada, com medo de alguns olhares que, ela e a casa, andavam recebendo. Ainda assim as duas cerejeiras e a mangueira do quintal da frente ainda se faziam bem presentes por sobre o muro, que ainda estava tomado de uma hera que possuía pequeninas e espaças flores amarelas, que amenizavam a tristeza de tal parede opressora. Mas a moradora atual da casa, dizia que era um mal moderno e necessário. Seu Ícaro resmungava, e resmungou quando da construção de tal barreira, mas não passou disso.
No quintal da frente tinham várias samambaias presas nas árvores e outras nas colunas da casa que, além das diversas espécimes de samambaias e orquídeas, ainda tinham pendurados algumas garrafinhas de água para os beija-flores. Possuía também três daqueles cogumelos de jardim todos bem sujos e cansados e tão integrados ao jardim, estando sempre no mesmo lugar, imóveis, desde a época da avó de Nadja, dona Vitória, que passavam quase desapercebidos. Provavelmente muita vida já passou por ali, desde formigas, grilos, insetos e sapos, como as crianças e os velhos da casa, tudo e todos já tiveram alguns instantes a sós ao lado deles.
Era um grande terreno em que a casa ficava no meio, podendo se chegar ao jardim de trás por ambas as laterais da casa. As janelas da cozinha e banheiro continham cortininhas de renda bem charmosas e antigas.
Seu Ataulpho, esposo de dona Vitória já com seus oitenta e quatro anos, durante as tardes gostava de ouvir na vitrola seus velhos discos de vinil de samba-canção, comendo uma goiabada e balançando em sua cadeira de balanço que se encontrava ao lado da porta de trás da casa, do lado de fora. Lembrava de quando era jovem e foi apaixonado por uma Violeta. Foi ele quem deu vida e ergueu a casa. E foi ali que falecera.
Bom, o jardim de trás da casa é que era o lugar mais querido e freqüentado dela. Tinha, além da cadeira de balanço, um tanque encostado a esquerda do muro, mais uma cerejeira, duas bananeiras, um pequeno pé de amora, uma jaqueira e muitas outras plantas menores que já estavam até precisando ser cortadas. Isso tudo já trazia uma paz a casa e aos seus moradores que adoravam o silêncio e a natureza. As sete bromélias davam um charme ainda maior no lugar. Acontece que ha muitos e muitos anos atrás, quando seu Ataulpho tinha seus dezessete anos, percebeu que a casa tinha um movimento estranho no quintal, e com o passar dos dias ele reparou que um João-de-barro havia feito sua casa em uma árvore bem antiga, não muito grossa, mas alta e cheia de galhos e folhas que faziam uma sombra confortável ao lugar que escolhera para sua moradia.
O avô de Nadja ficou encantado com o novo morador da casa e começou a espalhar pequenas frutinhas e migalhas de pão e biscoito todo o dia pelo jardim. Logo-logo, o João de barro trouxe sua companheira para o novo lar e aos poucos outras aves foram aparecendo, umas de cada espécie, uma após a outra. Conforme aumentasse a quantidade de alimento distribuída pela casa mais aumentava o número de moradores. O curió engraçado, um bem-te-vi bem afinado, e ainda um periquito atrapalhado e um canário bem exótico, logo gostaram do local e começaram a fincar pouso por ali.
Ataulpho ficou doido com àquilo. Cada dia mais colocava mais frutinhas e migalhas, e mandou subir um chafariz de pedra no meio do quintal, que pudesse refrescar mais as aves. A cada dia uma nova espécie de pássaro chegava, era quero-quero, tico-tico, sabiá, trinca-ferro e tantas outras. Logo, aquilo se tornara um viveiro sem grades, sonoro, vivo e colorido, viveiro tão cheio de histórias e emoções.
Hoje, porém, foi em especial um dia triste. Nadja despertou às oito horas como lhe era de costume e foi tomar o café na varanda onde sempre encontrava seu pai, umas vezes mexendo nas plantas, colocando água nas garrafinhas, mas principalmente tomando café sentado em um dos quatro bancos de pedra que faziam um círculo em volta do chafariz ou na cadeira de balanço.
Ele estava na cadeira de balanço. Estava dormindo. Ela pendurou umas poucas roupas ao lado do tanque, pois outras dentro d’um balde, falou um pouco com os pássaros, até que se dirigiu ao seu pai que estava por derramar o café no seu próprio colo. Ela limpou a mão no pano de prato que carregava amarrado na cintura e tirou o café de sua mão, e percebeu que já se encontrava bem frio.
Então, calmamente ela sentiu doer diferente o coração e sua cabeça a remeteu ao dia da morte de seu avô, que morrera já sendo considerado esclerosado, um tanto louco, só porque por volta dos sessenta e poucos anos resolvera falar somente com seus pássaros. Morrera ali, junto ao seu viveiro, justo num final de semana que ninguém estava em casa, e no domingo, quando Nadja chegou e o encontrou cheio de arranhões e marcas de bicadas, com frutas e penas por todos os lados de um jeito que jamais tinham ficado o quintal, ele e a casa, e ficou estupefata, impressionada tendo nesse, um dos dias de maior aprendizado de sua vida. Parecia que havia tido uma arruaça da passarada. A vizinha disse que durante os dias que estiveram fora, haviam escutado seu Ataulpho cantando como e com os pássaros, que parecia muito feliz e bem disposto, e parecia que tinha sido um final de semana agitado, alegre e musical.
Nadja voltou-se para o seu pai novamente. Olhou bem a sua volta e viu que os pássaros estavam a voar dando rasantes e entravam em casa pelas janelas, lembrou-se também que a uns dois três dias, não notava a família de João-de-barro.
Não teve dúvida. Seu pai estava morto. Ali, sentado na cadeira de balanço bem a sua frente, e sentindo ainda a vibração do bater alvoroçado dos pássaros sentiu um pequeno tremor nos joelhos e ameaçou até uma tonteira. Estava seu pai ali, morto e ainda morno bem a sua frente. Saberia o que fazer, e saberia que seria um dia muito difícil, mesmo que ela, de certa forma já estivesse o esperando.
Morto na mesma cadeira onde ela tinha sido amamentada por sua mãe, que morrera quando ela ainda tinha só, seis anos. Lembrou que ali também brincava de barco pirata com seu primo Beto, que ás vezes ia a sua casa, mas que hoje mora bem longe dali. Agora a cadeira que já balançara tantas pessoas e que embalou tantos sonhos, balançava pela última vez seu pai, que lhe fora tão fiel em tantas manhãs, e que havia consertado seus buracos que o tempo e o peso causaram-lhe na palha e que também os consertava no coração de Rúbia. Era um homem ótimo, bom caráter e um sempre alado e enorme coração.
Dona Marilda, senhora que trabalha na casa desde a infância de Rúbia não viria hoje. Respirando fundo e devagar, Nadja então, sentou em um dos bancos de pedras e olhando toda aquela cena: seu pai morto, na velha varanda da casa onde ela hoje já com cinqüenta e sete anos, tem todas as suas principais lembranças. Desde a correria nas brincadeiras de criança, seja nas aulas ecológicas de seu pai e seu avô, seja no abraço fraterno e materno de sua mãe e seu pai, e de todos os pássaros que já pousaram, fizeram e fazem parte de sua vida. Lembrou-se dos enterros dos passarinhos que morriam, e como eles os enterravam sempre tristes, mas sempre fortes sabendo que esses pássaros haviam vivido e voado por onde quiseram, e por onde o quiseram muito bem.
Teve a impressão de aquele ser o momento, o dia, mais triste que a casa, ela e o viveiro poderiam passar. Chegara o fim da vida de seu pai. Homem honrado, e tão cheio de energia. Adorava os pássaros como ninguém e vivia a dizer, todos os dias, que aprendera sempre uma coisa nova com alguma ave. Foi a alma do viveiro por muitos anos e lá chorou de amor e por saudade, sorriu de alegria e pra não chorar, alimentou e foi alimentado, enfim, viveu e morreu no viveiro e também, e porque não, para o viveiro. Viveiro tão livre e cheio de emoções.
O tempo nublou, a cantoria das aves aumentou e o vento fez derrubar vários galhos e folhas secas das árvores. Ela pensou que assim como às árvores, estamos todos morrendo, a todos os dias, ela, seus pais, as árvores, os pássaros, eu, e você, estamos sempre e a cada dia deixando galhos caídas pelas calçadas. O tempo todo, morrendo, porém sem nunca deixar de viver nessa incrível dinâmica incongruente que se faz vida.
Decidiu colocar seu pai deitado num dos bancos para que ela pudesse arruma-lo e lhe por as vestes adequadas para a situação. Teve que fazer bastante força para ergue-lo dali e leva-lo, arrastando pelo jardim até o banco mais próximo a casa.
Lembrou-se do aniversário de 50 anos de seu pai que ela deu-lhe de presente um novo bandolim, e que passaram essa tarde incrível num lindo dia de Sol a escutar o som do novo instrumento sendo tocado como que por um jovem, um jovem de 50 anos, enquanto tia Zélia dançava, batia palma e bebia. Foi também das últimas vezes que cruzou olhares com seu primo Beto.
Pois seu pai no banco. Tinha de ser uma posição em que ele não caísse. Nos bancos não havia encostos, eram como verdadeiras lajotas de pedra, mas ela conseguiu equilibra-lo ali. Foi à cozinha preparar um café bem forte e comer alguma coisa, pois caso contrário, não iria agüentar o dia que estava pela frente. Sentada na velha mesa de madeira onde tantas vezes serviu o café a seu pai e onde também brincou bastante de dança das cadeiras, em seus aniversários de quando era criança. Aqui, e só dessa fez, chorou a futura falta física de seu pai, chorou não poder abraça-lo mais, nem sentir a sua mão já velhinha lhe acariciar a pele. Agora só haverá saudades e lembranças. O tempo passa e leva com ele tudo. _ Até a saudade? _ Antes de tomar o último gole do café se surpreendeu com um faceiro quero-quero que pousou ligeiro em cima do açucareiro que estava sobre a mesa e começou a comer toda a açúcar que estava ali olhando para ela como que numa companhia àquele café, tão triste e cheio de dor e tão aparentemente sozinho.
Ela ergueu-se calmamente, secou as lágrimas com o pano seu pano de prato e caminhou em direção ao pai. O quero-quero voou em disparada e cantando para fora. O Sol voltara a brilhar ainda que um pouco tímido, mas a pequena chuva, que passara desapercebida, trouxe aquele inconfundível cheiro de terra molhada, e eterna sensação de frescor e comunhão com o ambiente natural que a envolve. Os pássaros, de maneira geral cantavam muito, a não ser pelo João de Barro que ainda não havia aparecido.
Chegando no jardim de trás, deparou-se com um número de pássaros jamais visto naquele viveiro. Tinham todos os tipos de aves e estavam por todos os lados, nas árvores, no bebedouro, em cima dos bancos, voando em torno da casa, dela e de seu pai. Alguns inclusive estavam pousados em cima dele, caminhando e bicando ele todo, por sobre a barriga, pernas, rosto, tudo. Não eram bicadas ferozes ou que pudessem causar alguma ferida, parecia mais era uma comunicação, uns toques, uma espécie de preparação para o que estava por vir.
Nadja abriu os braços e começou a rodar. As aves começaram uma cantoria única, mágica. Eram de todos os tons, sonidos e zunidos. Uma cantoria melódica e rítmica, um alvoroço de cores e melodias. Passavam pássaros voando por ela, com alguns chegando a esvoaçar-lhes os cabelos e passar raspando por suas pernas. Caiam galhos e penas por todos os lados.
Notou que seu pai agora estava seminu, e que os pássaros acabaram por tirar-lhe as vestes. Uma ótima, mas incerta sensação de bem-estar tomou conta de todo o ambiente. Havia uma forte e positiva energia naquele momento. Ela não teve medo, ao contrário, sentia que tudo estava muito bem.
Nadja Rúbia olhou para cima e viu um vendaval de passarinhos se unindo e formando uma nuvem colorida e sonora que voava em circulo sobre o jardim. E insanamente perplexa, notou que seu pai alçava vôo. Não com asas próprias, mas como que numa espécie de encanto, causado pelos pássaros que o rodeavam e o suspendiam sem tocá-lo. Havia uma espécie de pólen que o circundava, como que caindo das diversas asas que estavam com um bater apressado, dinâmico, sincronizado e hipnotizante.
Em alguns minutos seu pai já não estava mais ali. Havia voado com os pássaros que sempre cultivou e criou. Havia sido levado por eles ou simplesmente seguido a sua viagem, e por esse dia não mais se ouviu um único pio de pássaro no viveiro. Era como se tivessem morrido junto, ou simplesmente, que esperavam por esse dia para que pudessem leva-lo realmente para voar como os pássaros como sempre quis e fez seja na imaginação ou na simples estadia cotidiana com as aves.
Ela sentou-se em um dos bancos, de frente para a casa e o chafariz. Estava realmente sozinha, como nunca havia ficado em sua vida e, principalmente, nessa casa e nesse viveiro sempre tão vivo, colorido e alegre. Hoje, talvez, fosse realmente o dia mais triste de todos que ali viveram, mas naquele instante, ela se sentia bem, ainda confusa e triste pela falta do velho Ícaro, mas feliz por ter ele, literalmente, alçado vôo.
Permaneceu sentada ali por horas, vagando em cada espaço daquela casa, desde o período em que caçava aranhas nas telhas do sótão, as brincadeiras de esconde-esconde, até o dia da morte de seu avô, e agora, a morte de seu pai, isso tudo entre uma subida na jaqueira e um beijo escondido na frente da casa. Lembrou que assim como seu pai havia vivido sua vida inteira ali, e todas as suas histórias, de alguma forma envolviam aquele lugar.
Ali adormecerá naquela noite, e também ali foi despertada no dia seguinte. Não com o Sol que já brilhava de leve tão cedo, mas com um canto. Um canto conhecido e tão cheio de esperança. Um canto de memória e amor. Era o João de barro, junto com sua Maria de barro. Só havia eles no viveiro, e junto com eles apareceu sua cria. Um pequenino João de barro, tão frágil, mas valente. E foi ele quem cantou mais alto de manhã. Um canto tão bonito e sonoro que trouxe lágrimas novamente aos olhos de Rúbia. Apesar de ser uma mulher forte, estava bem sensível.
Juntamente com o arco-íris que surgia no céu, vieram o curió e o periquito. Devagarzinho foram chegando e se empoleirando. Entre uma bicada e outra, uma cantada daqui e outra de lá, começaram a ressurgir todos os pássaros, um a um. A cantoria voltara cheia de vida. Ela correu para dentro da cozinha preparar as frutinhas e biscoitos para os pássaros e o fez com celeridade cautela e amor, como quem cuida de um filho, ou de um pai.
Espalhou tudo no quintal e reparou que todos haviam voltado e, animada foi pegar água doce para encher as garrafinhas dos beija-flores, e quando ia pendurar a primeira na velha viga de madeira da casa tomou um susto. Um beija-flor, vermelho e diferente de todos o que ela já havia visto, parou diante dela e fixou-lhe o olhar. Trocaram alguns segundos de olhares e admiração até que ele saiu em disparada num voo circular e contente sobre o viveiro.
Ela partiu em direção ao tanque e começou a pendurar as roupas. Sabia que estava na companhia de seu pai, e como sempre desconfiara, também com seu avô. Estavam todos ali, vivos naquele viveiro, vivos em cada canto e bater de asas daqueles pássaros, vivos em cada lembrança e melodia, vivos num viveiro único de música, sons e cores. Um viveiro incrível. Viveiro incrível de sentimentos, viveiro da vida em que ela, dele e com ele se fez, novamente, voar tranqüila e suave, na leveza natural desse eterno, mágico e incrível viveiro de emoções.
Desculpem a demora...beijo a todos.
João de barro!
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3 comentários:
Excelente!!! Excepcional!!! Surpreendente!!!
valeu cada linha, cada dia junto a ti amigo!!! espere que muitos ainda venham!!! e parafraseando voce mesmo, "até a morte meu irmao, até a morte!!!"
abraços, do periquito desastrado, emocionado e orgulhoso pelo amigo joao!!!
Querido João, esse eu vou ter que imprimir e ler no papel! Farei isso durante o fim-de-semana, te mando uma resposta no Domingo. Obrigado por compartilhar seus pensamentos conosco e manter este viveiro ativo meu garoto! E valeu também por lembrar que o nosso viveiro sobreviverá "da boa vontade de cada um". Aproveita o finde!
Bent
Lindo Amigo!!! Sua criatividade e sensibilidade são tocantes! Por favor não pare nunca e não deixe esse viveiro carecer de vida!!! Bjos,
Albatroz!
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