Passarada: "viva essa energia". É o clima do Pan do Brasil.
Chega ai passarada...mas, como sei que tá difícil pra esses pássaros vou poustar aqui,mais uma vez, com a certeza que serão poucos e apenas os de sempre que verão e lerão, por isso ai vai.
Sem medo e nem preconceito.
Aproveito esse momento para dar o Parabéns ao Bent, que faz aninhos...beijo no coração grilo-bent-nariz.
Canarinho...estou a sua espera em agosto, e Corujão, pode esperar que sua hora vai chegar...
A moça e o Caramelo.
_ Toma ai moça, um biscoitinho e um suco.
_ Brigada meu filho...briga...
Dali, parti com o resto de minhas compras, indo para a minha casa confortável, receber amigos, ouvir e fazer música ao lado de minha namorada, era uma gente fina e bonita, cantarolando em um bom apartamento. Já a moça permaneceu ali, em sua casa, na rua. Ela conduzia um desses carros modernos e ao mesmo tempo tão antigos. Digamos que, são carros antigos adaptados a mais dura realidade, já antiga, mas tão contemporânea.
Ela estava sentada em cima dele, juntamente com um tantão de madeira, algumas garrafas plásticas, e também pedaços de papelão. Ela era, quase que, mais um trapo em cima da carroça. Carroça por sinal, sem bois ou burros, ou qualquer quadrúpede. Não, era ela o próprio animal.
Há muito ela saiu de sua casa, por um desespero qualquer, por não ter trabalho, por ter fome, por ter filhos com fome, ou ficou doida depois de mais uma tragédia na família, enfim, sei que há muito tempo ela anda pelas ruas, carregando seus entulhos pra um lugar que nem ela mais sabe onde. Já se perdeu faz muito tempo e vive a carregar e descarregar aquelas coisas, cada dia em uma esquina, ou numa praça.
A cidade a sua volta ferve o capitalismo fervoroso e sem qualquer mágoa. O som do desprezo, das estaladas de boca, repulsa, e pena faziam a sua música diária. Rodeada de arranha-céus enormes, denominados como Palácios. Castelos populacionais. “Favela da classe média”, disse certa vez um filósofo barbudo que passou por ela.
Aconteceu, algumas vezes d’ela pegar um pedaço de madeira, ou sei lá o quê, e andar dias com aquilo na carroça, e depois vir a soltá-lo, e depois, num outro dia, vir a busca-la novamente.
Uma ou outra senhora dava-lhe algo de comer, às vezes na porta de suas casas. É, a idade é sábia, frágil, e generosa. O tempo trás sabedoria.
Por um, dois anos atrás, ela domesticou um cachorrinho vira-lata. Ele era bem engraçadinho, pequenino, magricela e todo caramelo. Era uma graça e tornou-se seu fiel companheiro.
Ele também tinha uns dentes afiados, e tudo o que ela conseguia de comida, dividia com ele. Dava banho nele no coreto, onde tinha uma bica, uma fonte, ou algo parecido.
Curiosamente, ela chamava-o de Branco. Até hoje não sabia porque, uma vez que ele era todo caramelo, nem preto nem branco, caramelo. E tinha os olhos bem negros. Ele acordava, ela acordava, ele tinha fome ela logo arrumava algo pra comer, ele só dormia colado a ela. Eram grandes amigos, mas no geral ela era sempre triste. Abraçada ao Branco, que gostava sempre de rasgar os trapos que ela carregava.
Um dependia do outro. Eu não vi, mas me disseram que certa vez, ela havia caído e se machucado, perto da fonte, foi o caramelo, ou melhor, o Branco quem foi buscar ajuda.
Certa vez o cachorro adoeceu e quase morreu, mas ela cuidou muito rápido e bem dele conseguindo fazer com que ele não morresse. Depois, de tarde, quando ela urrava em prantos, por pensar como seria a vida sem seu Branquinho, enquanto o agarrava, e beijava, e apertava ele, um senhor de meia idade meio calvo mais de fartos bigodes, lhe trouxe lenços de papel. E ela ficou encantada com aquilo. Seu olho lacrimejou ainda mais, mas seu coração e sua alma de certa forma se enxugaram com aquele gesto.
Pensei eu: Imagine se alguém, algum dia a chama-se pra tomar um bom banho quente, usar um desses shampoos femininos, super cheirosos e cremosos, usasse um sabonete com cheiro de Camomila, com direito a no final, lixar a sola do pé e passar um creminho especial para o cotovelo. Imaginemos o que ela faria quando ela saísse da casa. Enfim, nunca ninguém fará isso por ela. Ela continuará fedorenta, carregando seu calvário nas costas, tendo como amigos o Branco, os Astros e as marquises das madrugadas.
Hodiernamente quando se paga por algum serviço, ainda assim, é difícil ouvir uma “Boa tarde”, ou “Até logo.” Que dirá a moça e o caramelo, que pedem. Pedem qualquer coisa, comida, um lenço, um sinal, uma ajuda ou um socorro, e mal recebem um olhar que não seja de repulsa, medo ou até nojo.
Certa vez, o trânsito estava muito confuso, havia uma passeata dos motoristas de Vans, reivindicando alguma coisa, e o trânsito ficou aquele caos. Avistei na rua mais movimentada, a moça e o caramelo, e logo percebi que ela se encontrava meio mal posicionada com suas coisa, meio no meio da rua, numa segunda-feira muito quente, e com aquele trânsito.
Foi então que passou um ônibus na toda ao seu lado, fazendo tudo que estava em cima da carroça voar para o meio da auto-pista. Num reflexo quase involuntário, partiu, a moça, em disparate para tentar agarra-los, mais acabou sendo atropelada por um carro de luxo, desses, meio de pai de família. Morreu ali mesmo, na hora, o trânsito que estava parado ficou ainda pior.
O vento levava as suas coisas pra longe, talvez para um lugar onde ela possa encontra-los novamente e voltar a catar e joga-los fora, cata-los e joga-los fora, eternamente. Não teve tempo de se despedir do Branco. Este, por sua vez, só teve tempo de latir, e avançar em cima do carro modelo monza 95 de cor vinho, e ficar mordendo sua roda quando ele parou.
Juntou muita gente. É que estranhamente, faz parte da curiosidade humana atentar as coisas as quais temos repulsa, como acidente de trânsito, ou quem caiu no rio, cenas trágicas e até mesmo aquela olhadinha pro vaso sanitário depois do coco. O fato é que a rua encheu de curiosos. Uns com pena, uns só por curiosidade mesmo, outros pelo hábito humano de gostar de desgraça, e outros até dando graças a Deus.
Branco permaneceu ali, naquela esquina, por muitos e muitos anos, acompanhando todos os carros que passavam, e, às vezes, latia e/ou atacava ferozmente alguns dos auto-motores, como que para se vingar da enorme perda que sofrera com a morte da moça. Era um ato repetido, ás vezes com um choro triste, e com o passar do tempo, o choro de seu próprio carma.
Choro maldito das noites na esquina, onde num dia de muita impaciência, o asfalto encheu-se do óleo do monza, de curiosos sarnentos, alardes de buzinas e do sangue ralo, pobre e fedorento de uma moça que não tinha nada nem ninguém, de uma moça que muitos a viam todos os dias, mas não a conheciam, nunca falaram nem nunca a ouviram, afinal ela era, além de mendiga e catadora de coisas, maluca, pois falava o dia inteiro com aquele cachorro caramelo. Mas esquina encheu-se mesmo foi dum choro eterno, minguante e agourento, de um velho cachorro caramelo, um cachorro feio e sarnento, a qual ela teimava em chamar de Branco.
FIM
Bejo no coração de todos e até.
Jão de barro.
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